ESCRITURAS MIGRANTES / IDENTIDADES REINVENTADAS
Rien n’était à justifier, ni ici, ni là-bas, c’était comme cela, un point c’est tout! Chercher et encore chercher et trouver la richesse dans ses contradictions, la réponse devait être dans le doute et pas ailleurs.
Leïla Houari, 1985, p. 83
Pensava (ao olhar para a imensidão do rio que traga a floresta) num navegante perdido em seus meandros, remando em busca de um afluente que o conduzisse ao leito maior, ou ao vislumbre de algum porto. Senti-me como esse remador, sempre em movimento, mas perdido no movimento, aguilhoado pela tenacidade de querer escapar: movimento que conduz a outras águas ainda mais confusas, correndo por rumos incertos.
Milton Hatoum, 1989, p.163
Assim compreendido, este entre-lugar nada tem de negativo ou improdutivo. Trata-se, como já disse inicialmente, de um espaço de criação, de invenção de uma outra concepção de identidade, da identidade como rizoma, tal como a define Édouard Glissant: “identidade não mais como raiz única mas como raiz indo ao encontro de outras raízes” (1996, p. 23).
Processo complexo, admite o próprio Glissant, pois implica uma abertura ao outro sem deixar de ser si mesmo. A seu ver, só uma “poética da Relação”, ou seja, um imaginário, poderia nos ajudar a “compreender” a situação dos povos no mundo de hoje, expostos cada vez mais ao contato com outras culturas, a uma interpenetração cultural cada vez mais forte. Tal fato faz com que comunidades que defendem suas identidades de raiz única se sintam ameaçadas de diluição, o que gera discriminações e conflitos de toda sorte (1996, p.24).
O enfrentamento desse processo vem sendo feito pelas literaturas ditas migrantes que, por conta do imaginário, apontam caminhos ou, como diria Paul Ricoeur, “soluções poéticas” para a questão identitária ligada à imigração.
É preciso salientar, no entanto, que, para Ricoeur, solucionar poeticamente as aporias não significa em absoluto dissolvê-las ou resolvê-las definitivamente, mas simplesmente despertá-las, torná-las produtivas (1985, p.247). A meu ver, é para este tipo de solução que a escritura dos imigrantes aponta uma vez que, ao dramatizar as aporias identitárias vivenciadas pelos personagens, ela as torna produtivas. Aporias estas que se manifestam na experiência do exílio, da errância entre o aqui e o lá, ou seja, entre a cultura estrangeira e a cultura de origem.
No que concerne aos romances de Leïla Houari, Zeida de nulle part, e de Milton Hatoum, Relato de um certo Oriente - que compõem o corpus deste trabalho -, a errância está implícita nos seus próprios títulos.
O primeiro é composto pelo nome árabe da personagem principal, Zeida, que quer dizer “nascida”, acompanhado da expressão em francês de nulle part, que indica a indefinição de lugar. Assim, já por seu título, o romance de Leïla Houari se apresenta no interstício entre duas línguas (árabe e francês) e sugere um perfil errante para sua personagem que não se identifica a nenhum lugar, o que será confirmado ao longo do texto quando Zeida dirá sentir-se “tout bonnement étrangère”(HOUARI, 1985, p. 74) seja na Bélgica onde vive, seja no Marrocos, seu país de origem.
Da mesma forma, o determinante “um certo” acompanhando o substantivo Oriente, no título do romance de Milton Hatoum, sugere logo a indefinição do lugar ou da cultura que o autor se propõe a relatar. Aliás, o próprio uso da palavra relato em vez de narrativa remete o leitor à idéia de viagem, dos relatos de viagem, um dos dois tipos arcaicos de narrativa oral de que trata Walter Benjamin em seu texto O Narrador e cujo representante é o marujo, aquele que vem de longe e que tem muito que contar (1994, p. 198-199).
Esta errância, anunciada no títuto, está logicamente presente na construção deste romance onde várias vozes narrativas se sucedem e se encaixam umas nas outras, mas sempre à sombra da voz da narradora principal que, “como um pássaro gigante e frágil” (HATOUM, 1989, p. 166) plana sobre todas elas.
Desta narradora principal, cujo nome nunca é citado, sabe-se apenas que a mãe a deixara ainda bem pequena, junto com um irmão, aos cuidados de uma matricarca libanesa instalada há muitos anos na cidade de Manaus. O relato que ela nos faz é o de sua volta a esta cidade, após um longo período de ausência, com o fim de reencontrar esta mulher que os criou como seus próprios filhos. Trata-se do relato de uma viagem ao passado através da memória, uma viagem a um mundo familiar particular aberto, como bem o diz Davi Arriguci Jr. na apresentação do livro, “à atmosfera ambígua de um certo Oriente - espaço flutuante onde velhas tradições religiosas e culturais vieram se misturar às imagens da terra” (In: HATOUM, 1989, orelhas).
Embora nascida em Manaus e supostamente filha de brasileiros, esta menina vai incorporar muito dessa cultura oriental na qual foi educada e, da mesma forma que outros membros desta família de imigrantes libaneses, viverá a experiência do exílio, do entre-dois. Assim, este seu regresso a Manaus, depois de um longo período no sul do Brasil, é um regresso em busca dessa sua origem adotiva, dessa cultura oriental presente em sua memória e da qual a casa em que foi criada em Manaus é o espaço simbólico. Casa onde se vivia e respirava uma atmosfera oriental representada pelas preces ou leituras do Alcorão feitas pelo pai muçulmano, pelas conversas em árabe entre os pais e nas reuniões tipicamente libanesas, que varavam a noite, e durante as quais se ouviam canções árabes, se recitavam poemas orientais e se repetia “o hábito gastronômico milenar de comer com as mãos o fígado cru do carneiro” (HATOUM, 1989, p. 58).
Apesar de proibidos de participar dessas reuniões, muitas vezes os filhos as assistiam às escondidas e este mundo envolto em uma aura misteriosa e sagrada despertava-lhes a curiosidade.
Fascinado justamente pelas “linhas rabiscadas” pela mãe (a caligrafia árabe) e pela voz do pai quando fazia suas preces, Hakim - narrador do segundo capítulo do romance - descreve seu interesse em querer decifrar aquela “fala estranha”, aquela “língua que, embora familiar, soava como a mais estrangeira das línguas estrangeiras” (HATOUM, 1989, p. 50).
Esta curiosidade de Hakim pelo árabe não passa despercebida aos pais e, uma noite, a mãe Emilie se propõe a ensinar-lhe este idioma. Esta será a chave para Hakim penetrar no mundo secreto e sagrado da família, principalmente da mãe que guardava trancados em um armário objetos, roupas e cartas antigas. Através da leitura dessas cartas, uma correspondência que Emilie manteve durante anos com uma amiga no Líbano, Hakim vai “percorrendo zonas desconhecidas do tempo e do espaço: Trípoli, 1898; Ebrin, 1917; Beirute, 1920; Chipre, Trieste, Marselha, Recife e Manaus, 1924” (p. 54) na tentativa de desvendar esse passado familiar marcado pela errância. Mas, as dificuldades com a caligrafia minúscula, a escrita em árabe clássico e as várias interrupções na correspondência lhe permitem apenas “tatear zonas opacas de um monólogo” (p. 56). E para decifrar essas passagens obscuras das cartas, que associo ao que Régine Robin chama de “zonas de sombra da memória” (ROBIN, 1989, p. 67), o narrador diz ter recorrido à intuição que nada mais é que o imaginário próprio da literatura.
Além da voz de Hakim, outras vozes se intercalam à da narradora principal para construir esse Relato de um certo Oriente, relato de uma viagem ao passado pelos “olhos da memória”, passado que - diz a narradora - “era como um perseguidor invisível, uma mão transparente acenando para mim”(HATOUM, 1989, p. 166). Mas esse relato é sobretudo o entre-lugar criativo que lhe permite fazer “o luto da origem” (ROBIN, 1993) e (re)inventar-se na própria errância, no movimento contínuo “que conduz a outras águas ainda mais confusas, correndo por rumos incertos” (HATOUM, 1989, p. 165).
O romance de Leïla Houari, Zeida de nulle part, também pode ser lido como o relato de uma viagem de regresso, mas trata-se aqui do regresso mítico que a personagem Zeida faz ao seu país de origem, o Marrocos, em busca de um sonho que a persegue, que habita suas noites: um cavaleiro negro de turbante, belo, mas com um rosto impossível de descrever, que a espera pacientemente e a leva para um mundo encantado (HOUARI, 1985, p.39).
Este sonho a remete à lembrança de umas férias que passara quando criança no vilarejo marroquino, lugar de origem de seus pais e onde ainda mora uma parte da família. Assim, na primeira parte do romance, Zeida transita continuamente no entre-dois, opondo sempre a cultura árabe representada pela lembrança mítica do seu país de origem - país do sol, do céu azul, dos perfumes, das cores e do calor humano - à cultura ocidental do país onde vive como imigrante, a Bélgica - país do cinza, da neve, da chuva, da frieza das pessoas, da solidão.
Este ir e vir entre Bruxelas com sua dura realidade e o vilarejo marroquino de seus sonhos está também presente na narrativa que, nesta primeira parte, oscila constantemente entre a primeira e a terceira pessoas, entre o “eu” e o “ela”. Esta oscilação traduz não apenas a incerteza identitária da narradora, Zeida, mas também a sua identificação, por momentos, com a mãe, única personagem com quem dialoga nessa primeira parte e a quem cede o papel de narradora para que lhe conte como fora sua vida no Marrocos: “- Mère, raconte-moi là-bas” (p.32). E é depois de ouvir o relato de sua mãe que ela toma a decisão de partir para viver pelos menos um tempo por lá.
Na segunda parte, em que conta o seu regresso a este vilarejo onde o pai a deixa aos cuidados de uma tia, a narrativa se faz toda ela na terceira pessoa, dando a impressão de que Zeida teria finalmente solucionado suas contradições, mas isso é pura ilusão. Nos seus múltiplos diálogos com os familiares e com as pessoas da terra, ela vai se dando conta de que, embora todos lhe queiram bem, eles a consideram uma estrangeira a esta cultura, uma filha da Europa que está ali apenas de passagem:
- Fais attention quand même, tu as eu de la chance: en général, ils sentent très vite les étrangers (HOUARI, 1985, p. 43).
(...) Mustapha lui disait de ne pas faire attention aux gens, ils ne voyaient pas beaucoup d’étrangers en cette saison, alors ils étaient curieux (HOUARI, 1985, p. 51).
- Ma petite fille d’Europe, tu rêves beaucoup trop. Si tu restes encore ici tu vas être très malheureuse (HOUARI, 1985, p. 73).
Finalmente, Watani, um amigo de seu primo por quem Zeida se interessara, identificando-o possivelmente ao cavaleiro de seus sonhos, lhe quita todas as ilusões ao dizer-lhe que deveria voltar para a Europa, pois sonhar não era permitido naquele lugar e ele nada tinha para lhe oferecer:
- Non Zeida, (...) tu n’es pas faite pour moi, je n’arrive même pas à te comprendre... repars, le rêve n’est pas permis ici (HOUARI, 1985, p.73).
- Il vaut mieux que tu repartes, pars Zeida, retourne là-bas, au moins tu es libre de penser comme tu veux, je ne peux rien t’offrir, rien... (HOUARI, 1985, p. 75).
Durante a longa viagem de ônibus da aldeia de sua família até Casablanca onde deve tomar o avião de volta à Europa, Zeida tem tempo para refletir e tomar consciência de que o Marrocos que ela idealizara nunca existiu, que este país azul era, no fundo, muito miserável e não tão sentimental quanto imaginara: “Era duro viver aqui” (p. 79). E pouco a pouco a imagem do cavaleiro negro também vai se petrificando em sua memória.
Feito “o luto da origem” (ROBIN, 1993), Zeida pode, agora, voltar para a Europa, já não mais para se lamentar da sua condição de entre-dois, mas para inventar um novo caminho, assumindo suas contradições internas para transformá-las em possibilidades criativas. Afinal, “a resposta devia estar na dúvida e não em outro lugar” (HOUARI, 1985, p. 83).
A leitura desses dois romances nos permite observar que a experiência do exílio, do entre-dois, é vivenciada de forma menos traumática pelos personagens de Milton Hatoum do que pela personagem de Leïla Houari. Os diferentes graus de integração e tolerância das famílias e das sociedades pode talvez explicar tal fato. Observa-se, por exemplo, que, ao contrário da família marroquina de Zeida que vive à parte da sociedade belga, a família de imigrantes libaneses do romance de Hatoum vive em comunhão com os habitantes da terra. Além da boa relação com os vizinhos, da amizade com a criada Anastácia, esta família adota duas crianças do lugar que serão educadas como seus próprios filhos. A matriarca Emilie também se ocupa de obras filantrópicas dirigidas aos moradores mais carentes da Cidade Flutuante de Manaus e o próprio pai, habitualmente sisudo e de pouca fala, tem alguns amigos na cidade com quem gosta de conversar e contar histórias. A tolerância das diferenças também se faz sentir em questões de fé: Emilie e o marido professam religiões diferentes (ele, muçulmano e ela, católica) sem que isso seja motivo de graves desavenças entre os dois. Já antes de se casarem haviam feito um pacto para respeitar a religião do outro e deixar os filhos livres para optarem por uma das duas ou por nenhuma (HATOUM, 1989, p. 69). A única marca de intolerância vem dos dois filhos mais novos do casal que discriminam a irmã por ser mãe solteira.
Já a família de Zeida, do romance de Leïla Houari, não tem praticamente contato com ninguém. A mãe vive encerrada em casa, o pai não entende o desejo de liberdade da filha e a relação entre os dois é conflituosa. Por outro lado, a sociedade belga também se fecha ao contato com o outro. Como conta Zeida, ela costumava sorrir quando cruzava com alguém, “mas a seu sorriso, só respondia a desconfiança” (HOUARI, 1985, p. 30). Esta desconfiança é um aspecto da discriminação que sofrem muitos imigrantes, hoje em dia, nas principais sociedades européias que defendem um status de identidade de raiz única e vêem a penetração de outras culturas no seu meio social como uma ameaça a sua integridade identitária.
Já o Brasil e outros países da América são - segundo Glissant – culturas compósitas para as quais a identidade é fator e resultado de uma “crioulização”, ou seja, a identidade não é concebida como raiz única, mas como raiz indo ao encontro de outras raízes (1996, p. 23). A história cultural desses países é toda ela marcada pela “crioulização”, pelo encontro de elementos culturais vindos de horizontes dos mais diversos que se imbricam e se confundem uns nos outros para dar alguma coisa de totalmente imprevisível, de totalmente novo (GLISSANT, 1996, p.15). Assim sendo, entende-se que a integração do imigrante na sociedade brasileira se dê de forma mais tranqüila.
Logicamente, os romances de Leïla Houari e de Milton Hatoum, situados em espaços e tempos distintos, expressam modos diferenciados de se vivenciar a errância, o exílio, o entre-dois. No entanto, ambos apontam para a mesma impossibilidade de se pretender construir uma identidade fechada, de raiz única. A identidade não só para os imigrantes, mas para todos nós, seres migrantes por natureza, está sempre em devir. Ela é feita de dúvidas, incertezas e contradições. É um movimento contínuo no qual se desconstroem oposições e binarismos e se cria um “Terceiro Espaço” onde as possibilidades de (re)invenção de identidades são infinitas. E o “Terceiro Espaço” recriado por esses dois romances é sua própria narrativa que, por conta do imaginário, se torna um espaço privilegiado para - como diria Ricoeur - se “solucionar poeticamente”, ou melhor, para “tornar produtivas” as aporias identitárias dos seres errantes.
Referências Bibliográficas:
BENJAMIN, Walter. O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Obras escolhidas, v. 1 (Magia e Técnica, Arte e Política). 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 197-221.
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1998.
GLISSANT, Édouard. Introduction à une poétique du divers. Paris: Gallimard, 1996.
HATOUM, Milton. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
HOUARI, Leïla. Zeida de nulle part. Paris: L’Harmattan, 1985.
RICOEUR, Paul. Temps et récit 3: le temps raconté. Paris: Seuil (poche), 1985.
ROBIN, Régine. Le roman mémoriel: de l’histoire à l’écriture du hors-lieu. Montréal: Éditions du Préambule, 1989.
_____. Le deuil de l’origine. Une langue en trop, la langue en moins. Paris: Presses Universitaires de Vincennes, 1993.